Puxado por apps de entregas, setor de motos tem mês histórico

23 de setembro de 2019

Matéria publicada no Correio Braziliense

O plano B de milhares de trabalhadores que deixaram o emprego formal nos últimos meses — vítimas da crise — está puxando para cima a indústria brasileira de motocicletas. Aplicativos como Uber Eats, Rappi, Loggi e iFood ajudaram as fabricantes de motos instaladas no país a produzirem 116.525 unidades em agosto, o melhor resultado do mês nesta década.

De acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), o resultado representa uma alta de 19,2% em relação ao mesmo mês do ano passado (97.773 unidades) e de 36,9% na comparação com julho do presente ano (85.131 unidades).

Para o presidente da Abraciclo, Marcos Fermanian, o mercado de delivery explica parte dessa alta, mas não é a única resposta. “A utilização de serviços de entrega por motocicletas já estava bem consolidada há alguns anos. Muitos motociclistas prestavam serviços para farmácias e pizzarias, por exemplo. No entanto, essas motocicletas ficavam paradas”, afirmou o executivo. “Havia também empresas especializadas em entregas especiais, como transporte de órgãos, só para citar um exemplo. Com a chegada dos aplicativos, esses entregadores puderam trabalhar para três ou quatro empresas e não apenas para uma só”.

Evolução do setor vem da falta de vagas formais no Brasil

De acordo com dados da Pesquisa por Amostragem de Domicílios Contínua (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a evolução do setor de motos é, sim, decorrência das dificuldades para quem busca vagas formais no Brasil.

A informalidade favorece a comercialização de motos no Brasil. O número de entregadores disparou no primeiro trimestre de 2019. O aumento chegou a 201 mil novos trabalhadores —ou 104,2% a mais no item delivery na comparação com o mesmo período no ano passado. “O delivery se destaca em meio à crise no contexto das ocupações temporárias. As motocicletas de baixa cilindrada, as mais baratas, se transformaram em ferramentas indispensáveis a quem precisa exercer atividades imediatas”, afirma o especialista em planejamento urbano pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Walter Capelli.

Total de unidades fabricadas pode ultrapassar 1 milhão

A Abraciclo projeta o total de 1,1 milhão de unidades fabricadas este ano, o que representará um salto de 6,1% sobre o ano passado inteiro. A entidade admite que o índice pode corresponder à demanda gerada pelo sistema de aplicativos, especialmente porque as exportações têm caído mês a mês em razão, principalmente, da crise na Argentina.

“No ano passado, de janeiro a agosto, as exportações atingiram cerca de 53.700 unidades e, neste ano, tivemos queda de 50% no mesmo período. A alternativa é buscar outros mercados. Honda e Yamaha, por exemplo, estão negociando com países como a Colômbia, onde os embarques já registram aumento de 29%, e com o Peru e Chile, com 3.419 unidades exportadas. As marcas estão concentrando seus esforços e negociando também com outros países da América do Sul”, completa Fermanian.

A exemplo das motos, as bicicletas também estão em alta. Para Cyro Gazola, vice-presidente do segmento de Bicicletas da Abraciclo, o aumento do uso das bikes, tanto como meio de mobilidade nos centros urbanos como para práticas esportivas, mantém o setor aquecido.

“Para atender a esse consumidor, as fabricantes nacionais oferecem modelos com maior valor agregado a preços mais acessíveis”, comenta. O executivo ainda destaca que a produção tende a crescer nos próximos meses com a chegada de datas comemorativas, como o Dia das Crianças, Black Friday e Natal, que costumam estimular as vendas desse produto.

Em agosto, a categoria mais produzida foi a Urbana, com 56.297 unidades, representando uma alta de 32,2% na comparação ao mesmo mês do ano passado (42.580 unidades) e de 60,7% em relação a julho do presente ano (35.038 unidades). Em segundo lugar, ficou a Mountain Bike (MTB), com 43.827 unidades, volume 37,6% superior em relação a agosto de 2018 (31.862 unidades) e 34,3% maior ante julho do presente ano (32.629 unidades).

De janeiro a agosto, a categoria mais fabricada foi a Mountain Bike (MTB), com 283.792 unidades e 47,9% de participação. “Apesar de ser usada, principalmente, em trilhas e terrenos acidentados, muitas pessoas passaram a utilizar esse tipo de bicicleta nas grandes cidades, devido aos recursos tecnológicos como suspensões, marchas e freios hidráulicos, que garantem maior conforto e segurança”, explica Gazola.

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